HB -Textos Ilustrados

Quarta-feira, Dezembro 13, 2006

CIDADE VERMELHA//611 NORTE – Sob o olhar de Dona Mônica

A Casa do Estudante Nipo-Brasileiro mistura estudantes japoneses e brasileiros em pensionato administrado pela rígida, porém amigável, Dona Mônica
Por Peu Lucena

“Para morar aqui, tem de estar estudando”, afirma com tom sério a simpática administradora do local. Dona Mônica diz ainda que as vagas são destinadas preferencialmente para os estudantes japoneses que fazem intercâmbio no Brasil. Porém, como estes são poucos, sobram vagas que são, sem nenhuma distinção, oferecidas a brasileiros.

Dona Mônica cobra R$ 250 reais de quem quiser dividir um quarto com outro estudante na 611 Norte. Pela proximidade com a UnB, os estudantes da Universidade são os inquilinos mais freqüentes. A mensalidade ainda inclui o café da manhã e a generosidade de Dona Mônica que não vê problema em os estudantes saírem à noite e voltarem ao amanhecer: “Contanto que não façam barulho, tudo bem!”

A Casa do Estudante conta atualmente com 19 meninos e 22 meninas. Estudantes do sexo feminino ocupam todo o andar de cima, que caso venha a ser freqüentado por algum menino: “Expulso na hora! Não espero nem amanhecer o dia!”, afirma Dona Mônica. Ela diz o fato de subir as escadas é inexplicável e imperdoável. Não tem desculpas. Os pais do “meliante” recebem o telefonema no meio da noite avisando que seu “pequeno prodígio” está com as malas na mão e no meio da rua. Também é proibido o namoro no carro após as 22h. Visitas depois das 23 é problema na certa.

Mas apesar de toda a mão de ferro de Dona Mônica, ela se diz a segunda mãe de todos os que moram com ela. “Somos uma grande família, a segunda família deles.” Eri Matsuda, uma japonesa que está no Brasil há oito meses mas já apresenta um português exemplar, concorda com Dona Mônica: “Do Brasil, o que mais vai fazer falta serão eles”. Eri se refere à família que fez aqui. E deve ter sido isso que ela cochichou em japonês por alguns minutos com Dona Mônica.

Natural de Nagoya, Eri veio ao Brasil aprender português no curso de Letras da UnB pelo fato de existir um grande número de brasileiros na cidade japonesa. Eri enxerga neles um público promissor para o mercado local na área de advocacia. Mas os planos estão mudando: “Estou pensando seriamente em ser diplomata”.

Eri conta que antes de vir para o Brasil achava que o país era tomado por florestas, que os índios andavam aos montes pelas ruas, que se sambava o dia inteiro e que havia carnaval o ano todo. Não que a realidade seja muito diferente, exceto pelos índios e florestas, mas Eri se assustou com Brasília e com São Paulo. “São iguais ao Japão!” Cai na gargalhada segurando uma colher cheia de brigadeiro de panela. Mariana Curi, estudante vida de Belo Horizonte, e Larissa Andrade, de Goiânia, acompanham Eri no riso e no doce tipicamente brasileiro. Eis a mistura de Brasília!