HB -Textos Ilustrados

Sexta-feira, Novembro 17, 2006

CIDADE VERMELHA//312 NORTE - Frangueiros

Brasília possui mesmo aquele ar de interior. Aquela coisa de trombar no meio da rua a qualquer hora com um vizinho de infância e descobrir que trabalham no mesmo prédio. Comer todo santo sábado no mesmo carrinho de cachorro-quente desde criança, que o dono nem lembra de te cobrar mais. Descobrir que está namorando o filho do dentista do seu pai e que não havia a menor chance de as famílias serem amigas de tempos pra trás. Enfim, aquela coisa de aonde você for, o tempo todo vão existir coisas tão características que vão te fazer lembrar que você mora em Brasília.

Carmen Gonçalves

Nas quadras residenciais do plano piloto, seguindo esta receita que nunca falha, uma figura recente aparece: os frangueiros. Aqueles tipos sorridentes e suados, cheios de pás de churrasco nas mãos, fincando uns frangos de aparência estranha (mas de cheiro delicioso!), e cheio de clientes cativos, fazendo filas junto às tendas brancas armadas estrategicamente na estrada das quadras. Cena altamente previsível! A fila é de brasilienses pais de família, voltando dos clubes ou do parque da cidade, cheios de fome e buscando o salvador dos almoços de final de semana: o frango magrelo!

Totalmente incorporado à rotina da classe média brasiliense, o esquema dos frangos de entrequadras revela um novo estilo de vida de uma sociedade que já não possui tantos traços de burguesia e machismo, como nos anos 60, da criação da cidade. Hoje as mães, que antes eram as responsáveis por colocar um baita almoço de domingo à mesa, não costumam acordar cedo para enfrentar a cozinha. Elas querem descanso, afinal a semana foi pesada, de jornadas duplas e triplas. Os responsáveis pelas famílias de hoje já não enxergam o final de semana como o momento de manter todos os assuntos em dia, reunir a filharada, almoços e confraternizações. Cada um quer seu cantinho, quer paz e sossego para recarregar as energias e encarar as próximas batalhas. No máximo, uma mãe de meia-idade e carente liga, meio que desesperada, para a filha que está bem longe e com milhares de coisas mais importantes pra pensar: “filhinha te espero pro almoço?” (aquela saladinha básica), a resposta: “aaaaaaa mãe!”

Christiennne de Lima é uma das muitas frangueiras da cidade. A barraca dela, na entrada da 312 norte, é um entra e sai o sábado inteiro. No local há cerca de 3 anos, ela possui uma funcionária, que limpa e tempera as aves. O negócio rende por volta de 200 reais por final de semana e é a única renda de Christienne, que mantém duas filhas e a mãe, numa casa simples no Gama. A maioria das pessoas que vivem deste tipo de informalidade possui este perfil. Como uma maneira alternativa de sobrevivência, elas exploram o bairrismo do brasiliense e vão ficando, fincando tradição.

A fiscalização não atrapalha, acontecendo raramente. Christienne, por exemplo, só foi abordada uma vez, num sábado. Ela lembra que os fiscais não traziam crachás ou identificação, nem mandado de apreensão, que levaram todo o seu material de trabalho, mas não aplicaram multa. A frangueira não recorda nem mesmo seus nomes. “Depois disso, nunca mais me incomodaram”. O que pareceu, no mínimo, uma ação suspeita, de fiscais com outras intenções, além de inibir o trabalho informal.

O que provavelmente impede o retorno dessas patrulhas é a pressão dos moradores, que não querem perder o serviço. Parece injusto que os moradores estimulem a situação da ilegalidade. Mas não é bem assim: há um projeto, de iniciativa de prefeitos de quadras, tramitando na Câmara Legislativa que prevê a legalização destes comerciantes, e a colocação deles em quiosques específicos e supervisionados pelo órgão competente da saúde pública. Mas não há, infelizmente, previsão de sanção.

Mas que o brasiliense é fã de um franguinho no meio da rua, aaaah, isso é!